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A reunião de orçamento que me fez reviver o maior erro da minha vida como arquiteta

  • Foto do escritor: Michelle Covacho de Medeiros
    Michelle Covacho de Medeiros
  • 23 de jan.
  • 3 min de leitura

Essa semana tive a reunião de um dos meus projetos. Um projeto que, até então, vinha sendo conduzido e liderado pela própria cliente. E, depois de muito tempo, essa reunião me levou direto ao meu pior trauma profissional e pessoal.

Essa cliente assumiu a responsabilidade de gerir todas as decisões do apartamento dos pais. Um imóvel localizado na zona sul de São Paulo, pensado para ser um espaço de apoio — aquele apartamento onde a família fica durante viagens rápidas à cidade.

Desde o início, a diretriz era clara: não fazer um alto investimento, justamente por ser um lar de passagem. O que a família não contava é que, mesmo em um apartamento que não será moradia fixa, algumas decisões precisam ser extremamente assertivas — porque impactam diretamente o orçamento da reforma.

De um lado, havia a possibilidade de fazer um apartamento simples, com poucas intervenções e um gasto mais coerente. Do outro, investir mais e aproveitar o grande potencial do imóvel, pensando em valorização futura e possível revenda.

Quando o imóvel não tem a finalidade de ser o lar definitivo da família, essa dúvida sempre aparece. E a minha orientação, nesses casos, costuma ser clara: intervenções estratégicas, com foco em valorização e liquidez futura. Mas esse apartamento tinha um fator decisivo: era um garden. E isso, inevitavelmente, eleva o valor do investimento.


Quando o orçamento muda tudo

Ao iniciar a reunião, repassei os orçamentos com a minha cliente. Tivemos a mesma percepção: diante das intervenções planejadas, os valores estavam coerentes e dentro do que havíamos imaginado. Até que chegamos ao orçamento do fechamento da cobertura.

Ali, todo o cuidado que tivemos ao longo do processo simplesmente desmoronou. O valor do fechamento superava, sozinho, o investimento da marcenaria — que normalmente é o item mais oneroso de uma obra — somado ao custo da obra civil.

Aquilo inviabilizava, de forma significativa, tudo o que havíamos planejado juntas.

E foi aí que a reunião ficou pesada.

A reunião de orçamento deixou de ser apenas sobre números. Ela passou a ser sobre responsabilidade. Uma decisão precisava ser tomada. E a minha cliente não estava confusa apenas com o orçamento. Ela estava confusa com prioridades, com o medo de errar, com o receio de comprometer o equilíbrio da família — financeiramente e emocionalmente.


O trauma que essa reunião despertou

Foi nesse momento que eu acessei o meu pior trauma. Antes de ser arquiteta para outras famílias, eu fui arquiteta dentro da minha própria casa. Assumi o projeto e o gerenciamento da construção da casa dos sonhos da minha mãe.

E foi um caos.

Uma lembrança que ainda me dá arrepios. Uma experiência que, muito provavelmente, vou carregar comigo por toda a vida. Em resumo, eu fiz exatamente o que hoje eu digo para os meus clientes não fazerem: tive pressa.

Houve contratações erradas. Falta de planejamento. Decisões tomadas sem suporte técnico adequado. Dinheiro perdido. Orçamento estourado. E, principalmente, um desgaste emocional diário.

O que ficou não foi apenas o prejuízo financeiro. Ficou o peso. A vergonha. A sensação constante de insegurança, culpa e arrependimento.

Por que reuniões de orçamento são tão importantes

Talvez por isso aquela reunião tenha me atravessado tanto.

Porque eu reconheci, ali, o mesmo ponto de tensão: o momento exato em que uma decisão mal orientada pode virar um problema que não tem volta.

Talvez por isso hoje eu seja tão cuidadosa ao orientar escolhas. Talvez por isso eu insista tanto em planejamento, faseamento da obra, análise fria de números e conversas difíceis antes de qualquer demolição. Porque eu sei, na pele, que uma escolha errada não termina quando a obra acaba. Ela fica.


Arquitetura também é cuidado com a família

Minha cliente está passando por um momento difícil. Mas eu me sinto aliviada por termos evitado que o caos se instalasse na família.

Agora, eles podem sentar com calma, rever prioridades, alinhar objetivos e, com o nosso suporte, seguir por um caminho mais assertivo — com números, prazos e visão de futuro.

Tenho certeza, baseada na minha própria experiência pessoal, de que é muito melhor se assustar agora do que entrar em um verdadeiro vespeiro: onde cada dia vira um susto, uma mágoa, um arrependimento.

Ser arquiteta não é só projetar espaços bonitos e funcionais.É sobre responsabilidade.É sobre decisão consciente.É sobre cuidar da casa — e da família — das pessoas também.

 


 
 
 

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